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sábado, 6 de fevereiro de 2010

Há quem pense que só acontece aos outros - os fracos

O que é que mudou nas empresas?

A organização do trabalho. Para nós, clínicos, o que mudou foram principalmente três coisas: a introdução de novos métodos de avaliação do trabalho, em particular a avaliação individual do desempenho; a introdução de técnicas ligadas à chamada  "qualidade total"; e o outsourcing, que tornou o trabalho mais precário.

A avaliação individual é uma técnica extremamente poderosa que modificou totalmente o mundo do trabalho, porque pôs em concorrência os serviços, as empresas, as sucursais  e também os indivíduos. E se estiver associada quer a prémios ou promoções, quer a ameaças em relação à manutenção do emprego, isso gera o medo. E como as pessoas estão agora a competir entre elas, o êxito dos colegas constitui uma ameaça, altera profundamente as relações no trabalho: O que quero é que os outros não consigam fazer bem o seu trabalho.

Muito rapidamente, as pessoas aprendem a sonegar informação, a fazer circular boatos e, aos poucos, todos os elos que existiam até aí a atenção aos outros, a consideração, a ajuda mútua  acabam por ser destruídos. As pessoas já não se falam, já não olham umas para as outras. E quando uma delas é vítima de uma injustiça, quando é escolhida como alvo de um assédio, ninguém se mexe.


Mas o assédio no trabalho é novo?

Não, mas a diferença é que, antes, as pessoas não adoeciam. O que mudou não foi o assédio, o que mudou é que as solidariedades desapareceram. Quando alguém era assediado, beneficiava do olhar dos outros, da ajuda dos outros, ou simplesmente do testemunho dos outros. Agora estão sós perante o assediador é isso que é particularmente difícil de suportar. O mais difícil em tudo isto não é o facto de ser assediado, mas o facto de viver uma traição, a traição dos outros. Descobrimos de repente que as pessoas com quem trabalhamos há anos são cobardes, que se recusam a testemunhar, que nos evitam, que não querem falar connosco. Aí é que se torna difícil sair do poço, sobretudo para os que gostam do seu trabalho, para os mais envolvidos profissionalmente. Muitas vezes, a empresa pediu-lhes sacrifícios importantes, em termos de sobrecarga de trabalho, de ritmo de trabalho, de objectivos a atingir. E até lhes pode ter pedido (o que é algo de relativamente novo) para fazerem coisas que vão contra a sua ética de trabalho, que moralmente desaprovam.

Qual é o perfil das pessoas que são alvo de assédio?

São justamente pessoas que acreditam no seu trabalho, que estão envolvidas e que, quando começam a ser censuradas de forma injusta, são muito vulneráveis. Por outro lado, são frequentemente pessoas muito honestas e algo ingénuas. Portanto, quando lhes pedem coisas que vão contra as regras da profissão, contra a lei e os regulamentos, contra o código do trabalho, recusam-se a fazê-las. Por exemplo, recusam-se a assinar um balanço contabilista manipulado. E em vez de ficarem caladas, dizem-no bem alto. Os colegas não dizem nada, já perceberam há muito tempo como as coisas funcionam na empresa, já há muito que desviaram o olhar. Toda a gente é cúmplice. Mas o tipo empenhado, honesto e algo ingénuo continua a falar. Não devia ter insistido. E como falou à frente de todos, torna-se um alvo. O chefe vai mostrar a todos quão impensável é dizer abertamente coisas que não devem aparecer nos relatórios de actividade.



in http://www.publico.pt/Sociedade/um-suicidio-no-trabalho-e-uma-mensagem-brutal_1420732

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

domingo, 30 de novembro de 2008

crise

in Courier, edição Dezembro 2008

sábado, 29 de novembro de 2008

Os excessos da burocracia

João Cesar das Neves - DESTAK

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Trucidados

"Um rapaz desconhecido subiu ao palco mediático para proclamar a sentença dos funcionários públicos recalcitrantes: trucidados....

Mas os funcionários públicos já estão a ser trucidados. Não os que se opõem à reforma, mas aqueles que a praticam. São trucidados pelas folha A4 saídas em catadupa de um computador concebido para poupar papel. Em escolas, hospitais, institutos, repartições, é um ver- se- te -avias de projectos, protocolos, relatórios, inquéritos, avaliações e o que mais se verá para entreter toda uma hierarquia de chefes e subchefes.

Tirando quem os preenche, ninguém vai ler tais papéis. Mas vão-lhes apor um despacho aleatório que ditará a vida dos que estão na base da hierarquia. Só que estes também já estão a ser trucidados pelo trabalho real que sobra, uma vez que os outros só trabalham para o papel"

in DESTAK- Estranho quotidiano- J.L. Pio Abreu 7 de Nov de 2008

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